“E fui conduzido pelo Espírito, não sabendo de antemão o que deveria fazer.” 1Néfi 4:6

Você alguma vez se sentiu inspirado a fazer algo que não lhe fazia sentido? Você já se viu discutindo com o Espírito Santo por causa disso? Você já tentou ignorar esta impressão por ela ir contra a sua lógica e no final percebeu que você estava errado? Ou você já pôs a prova este sentimento que a princípio lhe parecia loucura, e depois se deu conta que foi a melhor decisão que você poderia ter tomado? É sobre este tipo de experiência que falarei neste 6º artigo da série “Deus fala comigo”.  Nos 5 primeiros artigos, nós vimos que Deus pode se comunicar conosco através das escrituras, de sonhos, de um ardor no coração, de uma paz ao nosso peito e à nossa mente e por meio de um estupor de pensamento. Hoje veremos situações nas quais somos inspirados a caminhar com coragem para fazer algo que vai completamente contra a nossa própria razão, contra a nossa lógica, para depois então descobrirmos que fizemos a melhor escolha.

Eu nunca irei esquecer a maneira como aprendi essa lição. Eu era um missionário na cidade de Salvador, Bahia. Era já noite, próximo do horário de estarmos em casa, por isso meu companheiro e eu andávamos depressa pela rua. Eu precisava ligar para uma irmã de nossa ala para avisá-la que não poderíamos mais almoçar na casa dela no dia seguinte. Eu tinha apenas um cartão telefônico comigo, e então avistei um orelhão do outro lado da rua, e pensei – “vou usar este mesmo, pois não sei se haverá outro orelhão mais para frente”. Naquele instante, eu recebi uma clara impressão na minha mente, dizendo “Não”. Tive então aquele sentimento de incômodo no meu peito, que descrevi no artigo 5, que hoje eu sei que era o Espírito de Deus me dizendo não! Como eu ainda não estava acostumado com esta comunicação celestial, comecei silenciosamente a argumentar com o Senhor, e disse em minha mente – “Mas eu não sei se haverá outro orelhão depois deste, não posso arriscar”. – e novamente veio à minha mente – “não”. E pensei, “ mas se eu passar direto por este, e for até nossa casa sem passar por nenhum outro orelhão, eu não terei outra maneira de avisar a irmã, pois meu horário para chegar em casa está no limite”. E me veio novamente aquela impressão, dizendo “não”. Mesmo assim, com um incômodo em meu peito, chamei meu companheiro e lhe disse para atravessar a rua porque eu precisava cancelar o almoço com a irmã. Para mim, naquele momento, a decisão mais racional e lógica seria aquela, não teria porquê deixar para depois. Tendo isso em mente, enfiei o meu único cartão telefônico no orelhão que, imediatamente, engoliu o meu cartão e fim da história – não tinha mais como eu ligar para a irmã, eu perdera meu cartão telefônico em um orelhão quebrado. Nunca vou esquecer o sentimento que tive naquela hora, senti-me muito mal por ter confiado mais na minha sabedoria do que na inspiração do Senhor. Fiquei sem reação, não sabia o que fazer, eu não iria ligar a cobrar para a irmã, já era tarde e não dava tempo de comprar outro cartão, eu teria que resolver isso no dia seguinte pela manhã. Tudo teria sido tão mais fácil se eu somente tivesse ouvido o que o Espírito de Deus me dissera. Continuamos caminhando em direção à nossa casa, e uns dois quarteirões dali, eu avistei um outro orelhão…e foi assim que aprendi a não duvidar nunca mais das impressões “sem lógica” que às vezes o Senhor coloca em nossa mente e em nosso coração.

Aprendi, através desta experiência, que existem dois tipos de lógica – a nossa e a de Deus. Às vezes elas coincidem, mas às vezes elas são opostas. Mesmo que para nós pareça loucura, se para Deus aquilo é o certo a ser feito, precisamos ser humildes e abrir mão da nossa própria razão para aceitar a lógica de Deus. Creio que é sobre este princípio que Néfi se refere na escritura abaixo.

“Ó Senhor, confiei em ti e em ti confiarei sempre. Não porei minha confiança no braço de carne, pois sei que aquele que confia no braço de carne é maldito. Sim, maldito é aquele que confia no homem, ou seja, que faz da carne o seu braço.”   2Néfi 4:34

Assim como eu aprendi esta lição com a história do orelhão quebrado, é possível que Néfi tenha aprendido este princípio quando foi com seus irmãos pegar as placas de latão das mãos de Labão. Vejamos o que aconteceu – o profeta Leí havia ordenado aos seus quatro filhos que voltassem à Jerusalém para obter as placas de Latão que estavam na posse de Labão. Ao chegarem lá eles tiveram a seguinte atitude:

“E eu, Néfi, e meus irmãos empreendemos a viagem pelo deserto com nossas tendas, para subirmos à terra de Jerusalém. E aconteceu que, tendo subido à terra de Jerusalém, eu e meus irmãos pusemo-nos a deliberar. E lançamos sortes, para ver qual de nós iria à casa de Labão. E aconteceu que a sorte caiu sobre Lamã; e Lamã foi à casa de Labão e falou com ele, enquanto estava sentado em sua casa. E pediu a Labão os registros que estavam gravados nas placas de latão, que continham a genealogia de meu pai.” 1Néfi 3:9-12

Vemos que a primeira atitude dos irmãos ao chegarem em Jerusalém foi deliberar. Penso que no Livro de Mórmon em Inglês está mais claro o que foi que eles fizeram, nele lemos:

“And it came to pass that when we had gone up to the land of Jerusalem, I and my brethren did consult one with another.” 1Néfi 3:10

Traduzindo mais “ao pé da letra”, Néfi teria dito: “Eu e meus irmãos nos aconselhamos uns com os outros”.  Por fim, lançaram sortes para definir qual deles iria até Labão. Apesar do ato de “lançar sortes” ser algo comum para os judeus antigos para conhecer a vontade de Deus, parece que os quatro irmãos decidiram sozinhos que o melhor a ser feito seria que um dos quatro fosse até a casa de Labão naquele instante e simplesmente pedisse as placas. Não vemos em nenhum momento eles orando ou pedindo orientação a Deus sobre como eles deveriam agir, ou seja, eles confiaram em sua própria lógica. Por fim, Labão acusou Lamã de ladrão e tentou mata-lo.

“E eis que Labão se irou e expulsou-o de sua presença; e recusou-se a dar-lhe os registros. Portanto, disse-lhe: Eis que tu és um ladrão e vou matar-te.” 1Néfi 3:13

Eles ficaram muito aflitos com a situação, e seus irmãos pensaram em desistir e voltar junto ao seu pai, Leí, no deserto. Porém, Néfi conseguiu persuadi-los a tentarem mais uma vez, e sugeriu uma nova estratégia.

“E aconteceu que descemos à terra de nossa herança e recolhemos nosso ouro e nossa prata e nossas coisas preciosas. E depois de havermos reunido essas coisas, subimos novamente à casa de Labão. E aconteceu que entramos na casa de Labão e pedimos-lhe que nos entregasse os registros que estavam gravados nas placas de latão, pelos quais lhe daríamos nosso ouro e nossa prata e todas as nossas coisas preciosas.” 1Néfi 3:22-24

A segunda estratégia pensada por Néfi parecia boa. Já que Labão achava que Lamã queria lhe roubar, desta vez eles iriam tentar comprar as placas, oferecendo a Labão todas as suas riquezas. Já que seus irmãos estavam com medo, porque Labão tentara matar Lamã, dessa vez eles iriam todos juntos, os quatro. Assim estariam mais seguros e com um bom argumento para conseguir obter as placas. Bem lógico, porém novamente não vemos nenhuma menção ao Senhor ou à revelação pessoal, eles estavam agindo pelo seu próprio entendimento. Vemos o resultado abaixo.

“E aconteceu que quando Labão viu que nossos bens eram muitos, cobiçou-os, de modo que nos pôs para fora e enviou seus servos para nos matarem, a fim de apoderar-se de nossos bens. E aconteceu que fugimos dos servos de Labão e fomos obrigados a abandonar nossos bens; e eles caíram nas mãos de Labão.”                  1Néfi 3:25-26

Infelizmente o segundo plano deles também deu errado, ou melhor, felizmente, pois foi assim que Néfi aprendeu a confiar mais no Senhor. Pela lógica dos dois irmãos mais velhos não havia mais estratégia a ser pensada pois não havia outra solução. Para a razão humana, aquilo era uma derrota que eles deveriam simplesmente aceitar, pois os quatro irmãos jamais conseguiriam superar a força dos homens de Labão. Vemos por suas palavras abaixo.

“E depois que o anjo partiu, Lamã e Lemuel começaram novamente a murmurar, dizendo: Como é possível que o Senhor entregue Labão em nossas mãos? Eis que ele é um homem poderoso e pode comandar cinquenta, sim, ele pode mesmo matar cinquenta; por que não a nós?” 1Néfi 3:31

Um anjo havia acabado de aparecer aos quatro irmãos, e mesmo assim Lamã e Lemuel achavam impossível obter as placas. Porém, naquele momento tudo mudou para Néfi, pois ele exerceu fé nas palavras do anjo.

“E aconteceu que enquanto nos açoitavam com uma vara, apareceu um anjo do Senhor que, pondo-se à frente deles, lhes disse: Por que açoitais vosso irmão mais jovem com uma vara? Não sabeis que o Senhor o escolheu para ser vosso governante, devido a vossa iniquidade? Eis que tornareis a subir a Jerusalém e o Senhor entregará Labão em vossas mãos.” 1Néfi 3:29

As palavras do anjo parecem ter tocado fundo o coração de Néfi, que imediatamente acreditou em tudo o que ele dissera e tentou assim convencer seus irmãos a acreditarem que Deus poderia entregar-lhes as placas. Néfi então se lembrou de Moisés que vivera um momento parecido, quase impossível, que era escapar das mãos dos Egípcios, mas com o poder de Deus foi capaz de libertar o seu povo. Assim, Néfi entendeu que Deus também poderia fazer o mesmo por eles em relação às placas. Veja as palavras de Néfi aos seus irmãos abaixo.

“E aconteceu que falei a meus irmãos, dizendo: Subamos novamente a Jerusalém e sejamos fiéis aos mandamentos do Senhor; pois eis que ele é mais poderoso que toda a terra. Então, por que não há de ser mais poderoso que Labão e seus cinquenta, sim, ou mesmo suas dezenas de milhares? Subamos, portanto; sejamos fortes como Moisés; porque ele por certo falou às águas do Mar Vermelho e elas dividiram-se para um e outro lado; e nossos pais saíram do cativeiro passando sobre terra seca; e foram seguidos pelos exércitos de Faraó, que se afogaram nas águas do Mar Vermelho. Agora, eis que sabeis que isso é verdade; e sabeis também que um anjo vos falou; como, pois, podeis duvidar? Subamos; o Senhor tem poder para livrar-nos, como livrou nossos pais; e para destruir Labão, como destruiu os egípcios.” 1Néfi 4:1-3

É impressionante a diferença da atitude de Néfi depois que o anjo lhe apareceu. Você percebe que há uma completa mudança na postura dele? Percebe que nas duas primeiras tentativas eles não falaram em Deus? Agora ele estava cheio de fé. Penso que neste momento Néfi começou a entender que em todas as suas escolhas ele precisava se aconselhar com Deus. Penso que Néfi também aprendeu que fé não é só crer, mas é agir mesmo contra sua própria lógica tendo coragem e esperança nas promessas de Deus. Como consequência, não havia mais estratégia a ser pensada, nem argumentos a serem debatidos, agora era preciso somente seguir o Espírito de Deus com fé, assim como Moisés. A escritura abaixo resume este grande aprendizado que Néfi nos dá.

“E fui conduzido pelo Espírito, não sabendo de antemão o que deveria fazer.”       1Néfi 4:6

Como consequência, sabemos que os irmãos conseguem, por fim, obter as placas de Latão e voltam em segurança para o deserto junto aos seus pais. Repetindo o que eu escrevi no início do artigo, hoje estamos vendo situações nas quais somos inspirados a caminhar com coragem para fazer algo que vai totalmente contra a nossa própria razão, contra a nossa lógica, para depois então descobrirmos que fizemos a melhor escolha. Foi seguindo este espírito que Néfi conseguiu obter as placas, e foi ignorando este espírito que eles quase foram mortos por Labão e que eu perdi meu cartão telefônico. Não podemos ficar discutindo e argumentando com o Espírito do Senhor assim como eu fiz sobre o orelhão e como Lamã e Lemuel fizeram com relação às placas. O raciocínio do Senhor está muito além do nosso, precisamos ter humildade para ouvi-lo.

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.” Isaías 55:8-9

Se não aprendermos a abrir mão da nossa própria razão, da nossa própria lógica e dos nossos próprios desejos para ouvir a voz de Deus, se continuamente entrarmos em conflito com a voz do Espírito e decidirmos seguir nossos próprios caminhos, momento chegará em que seremos abandonados à nossa própria sorte, pois o Espírito de Deus não contenderá para sempre com o homem. Deus nos ama tanto e Ele respeita tanto o nosso livre arbítrio, que se quisermos viver sem a orientação divina, se quisermos sempre seguir nossa própria razão, então ficaremos sozinhos, porque assim o quisemos.

“E o irmão de Jarede arrependeu-se do mal que havia feito e invocou o nome do Senhor por seus irmãos que se achavam com ele. E o Senhor disse-lhe: Perdoarei a ti e a teus irmãos vossos pecados; mas não pecareis mais, porque vos lembrareis de que o meu Espírito não contenderá para sempre com o homem; portanto, se pecardes até estardes plenamente amadurecidos, sereis afastados da presença do Senhor.” Eter 2:15

Pois o Espírito do Senhor não contenderá para sempre com o homem. E quando o Espírito cessa de contender com o homem, advém rápida destruição; e isto me aflige a alma.” 2Néfi 26:11

Porque eis que o Espírito do Senhor já deixou de  contender com os seus pais; e estão sem Cristo e sem Deus no mundo; e são levados de um lado para outro, como palha ao vento.” Mormon 5:16

Outro exemplo muito bom das escrituras, é quando Alma prega o evangelho em Amonia, e ninguém dá ouvidos às suas palavras e o expulsam da cidade. Lemos

“Ora, quando o povo disse isto e refutou todas as suas palavras e ultrajou-o e nele cuspiu e fez com que fosse expulso de sua cidade, ele partiu dali e viajou em direção à cidade que era chamada Aarão.” Alma 8:13

Vemos no versículo 10 que Alma havia se esforçado muito em espírito “suplicando a Deus, em fervorosa oração, que derramasse o seu Espírito sobre o povo”, mas mesmo assim ele foi expulso da cidade, foi cuspido e ninguém se converteu às suas palavras. Racionalmente não havia mais nada que ele pudesse ter feito, então ele caminhou para outra cidade, Aarão. Neste momento um anjo apareceu para ele, assim como aconteceu com Néfi e seus irmãos, e lhe ordenou que voltasse à Amonia.

“E aconteceu que enquanto se dirigia para lá, estando abatido de tristeza, passando por muitas tribulações e angústias por causa da iniquidade do povo que se achava na cidade de Amonia, aconteceu que enquanto Alma estava assim abatido de pesar, eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: Bendito és tu, Alma; levanta, portanto, a cabeça e alegra-te, pois tens grandes motivos para te alegrares; porque foste fiel aos mandamentos de Deus desde o momento em que recebeste dele a primeira mensagem. Eis que sou aquele que a transmitiu a ti. E eis que fui enviado para ordenar-te que voltes à cidade de Amonia e pregues novamente ao povo da cidade; sim, prega-lhes. Sim, dize-lhes que, a menos que se arrependam, o Senhor Deus os destruirá.” Alma 8:14-16

Imagine se você estivesse no lugar de Alma, o que você diria ao anjo? Podemos imaginar o que Lamã e Lemuel responderiam, provavelmente diriam: “Mas eu acabei de sair de lá!” “Não adianta, eles me odeiam, acabaram de me cuspir e me expulsar!” “Mas eu já orei e supliquei ao Senhor e não adiantou nada” “Eles não querem saber do evangelho, não adianta, já tentei” “Não faz sentido, se eu acabei de fazer isso, o que adianta voltar?”. Por outro lado, o que Néfi teria respondido? Vejamos a resposta de Alma:

“Ora, aconteceu que depois de haver recebido a mensagem do anjo do Senhor, Alma voltou rapidamente à terra de Amonia. E entrou na cidade por outro caminho, sim, pelo caminho que fica ao sul da cidade de Amonia.” Alma 8:18

Você consegue sentir o tamanho da fé da Alma? Não importa se você já tentou, não importa se você já fracassou, não importa se não faz sentido, não importa se a lógica é agir de outra maneira, não importa se o mundo diz que você deve desistir, se o Senhor te inspirou a seguir por um caminho, siga “rapidamente” por esse caminho. Foi assim com Néfi, foi assim com Alma e deve ser assim com a gente também. Sabemos pela história de Alma que ao chegar em Amonia o Senhor havia preparado Amuleque para recebe-lo. Juntos eles tiveram uma grande experiência espiritual naquela cidade.

Um exemplo negativo na história da Igreja seria o caso de Martin Harris. Ele foi uma das Três Testemunhas da origem divina e da veracidade do Livro de Mórmon. Ele ajudou Joseph Smith e a Igreja financeiramente. O Senhor pediu a Martin Harris que vendesse a sua propriedade e doasse o seu dinheiro para pagar a publicação do Livro de Mórmon. Martin Harris hipotecou a sua fazenda e vendeu parte da mesma para custear a impressão de 5.000 cópias do Livro de Mórmon. Ao traduzir o Livro de Mórmon, Joseph Smith começou com o livro de Leí, que era um registro resumido por Mórmon das placas de Leí. Quando Joseph tinha já um manuscrito de 116 páginas que havia traduzido desse livro, Martin Harris pediu-lhe que pudesse mostrar os manuscritos à sua família, mas a resposta do Senhor ao profeta foi não. Seria interessante por um momento nos colocarmos no lugar de Martin Harris. Ele era um homem inteligente, bem-sucedido, que estava gastando seu dinheiro e seu tempo em um projeto e precisava dar alguma satisfação à sua família. Seria lógico permitir que este homem tão bom mostrasse o seu trabalho para sua esposa e familiares. Estaria dentro da razão e do bom senso poder dar uma simples satisfação à esposa mostrando-lhe a obra que ele vinha traduzindo. Por que não? Pois bem, Martin Harris achou que sua lógica era melhor do que a do Senhor, e não aceitou o primeiro e nem o segundo não de Deus, e insistiu pela terceira vez, até que o Senhor concordou com ele, com a condição de mostra-las somente à esposa e a alguns membros da família. Martin quebrou sua promessa e mostrou as páginas para outras pessoas, e por fim perdeu todas as 116 páginas. Com isso, Joseph Smith foi repreendido pelo Senhor, perdeu por um tempo o dom de traduzir e entregou as placas para o Anjo Moroni, que só lhe devolveu tempo depois. O Livro de Mórmon teve que começar a ser traduzido do início de novo, das placas menores de Néfi. Vemos aí o tanto de trabalho, estresse, tristeza e decepção que pode vir sobre nós quando achamos que a nossa razão tem mais lógica do que a de Deus.

Um dos melhores companheiros que tive na missão foi o Elder N., pois ele era extremamente espiritual, eu podia sentir o poder do Espírito em suas palavras cada vez que ele prestava o testemunho. Compartilho aqui como foi sua conversão. Elder N. havia sido da Igreja Presbiteriana por toda a sua vida. Seu avô havia sido um pastor e ele seguia os mesmos passos. Ele estudava teologia em São Paulo com uma bolsa da Universidade, e recebia ajuda de custo para inclusive pagar seu aluguel na capital paulista. Certo dia, ao meditar sobre sua vida e toda sua história como um homem de Deus, ele orou ao Senhor com as seguintes palavras: “Senhor, há tantos anos que eu busco segui-lo e fazer tudo ao meu alcance para servi-lo, o Senhor sabe de todo meu estudo e meu sacrifício, mas no fundo eu ainda me sinto tão distante do Senhor, o que mais eu devo fazer? O que eu posso fazer para me sentir mais próximo do Senhor meu Deus?”

Alguns dias depois de ter feito esta oração, ele estava voltando para sua casa a pé, como de costume, quando teve a sensação de que deveria seguir por um caminho diferente. Seguindo esta impressão “sem lógica”,  ele começou a andar por outra rua, dando uma volta maior para chegar no seu apartamento, sem saber exatamente o porquê. Ao chegar em uma praça, ele observou que havia uma exposição da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e ele muito pouco sabia a respeito dos mórmons. Caminhou então pela praça e passou por diversos missionários mas ninguém o parou para conversar. Após ter cruzado praticamente toda a exposição sem ser abordado, dois missionários finalmente vieram conversar com ele. Ao pegar seu endereço, eles constataram que eram exatamente a dupla que trabalhava na área onde ele morava – em uma exposição com tantos missionários, em uma cidade como São Paulo, não tem como não se surpreender com tamanha “coincidência”. Meu amigo me relatou que ao caminhar por esta praça, e conversar com os missionários, ele teve um forte sentimento de paz, como eu descrevi nos artigos 4 e 5 desta série. Alguns dias depois, quando os missionários o visitaram em seu apartamento, ele novamente teve aqueles mesmos sentimentos fortes de paz. Assim, depois de algumas palestras, muitas pesquisas e muitas perguntas, meu amigo decidiu ser batizado, largou seu curso de teologia e seu sonho de virar pastor, foi contra toda a tradição de sua família, perdeu sua bolsa de estudos e um ano depois saiu para fazer uma missão voluntária de tempo integral na Bahia, e eu tive a honra e a sorte de ter sido seu companheiro. Gosto de relatar esta história para mostrar como podemos nos aproximar de Deus através de uma oração sincera e de humildade para ouvir os sussurros do Espírito, mesmo quando ele te disser para seguir por um caminho que, à princípio, parece mais longo, mais difícil e menos lógico. Sempre será mais lógico ouvir a voz de Deus do que a nossa própria voz.

Certa vez questionei um rapaz na Igreja do porquê de ele não desejar servir uma missão – ele me respondeu com muitas coisas que eram bem lógicas e tive que concordar. Seria muito difícil largar os estudos e o trabalho, era complicado ir contra sua família que não era da Igreja, é muito sacrifício ser um missionário, ele poderia ainda assim se casar no templo e ter uma vida fiel no evangelho sem ter servido uma missão, como muitos já fizeram. É verdade, tudo muito racional e lógico, não há como negar. Se analisarmos desta maneira parece até loucura alguém decidir servir uma missão. Por um momento então eu orei em minha mente e pedi ao Senhor que me ajudasse a saber o que responder, e me veio a seguinte resposta à mente: Você conhece alguém que já serviu uma missão e que se arrependeu de tê-la feito? Você conhece alguém que sente que perdeu tempo por ter servido uma missão? Eu conheço muitos missionários retornados, inclusive pessoas afastadas da igreja, e nunca ouvi ninguém dizer que se arrependia de ter feito missão, muito pelo contrário. As coisas de Deus realmente podem nos parecer loucura quando analisamos pela nossa própria razão ou pela lógica do mundo, mas sempre veremos que valeu mais a pena termos seguido a orientação do Nosso Pai Celestial. Algo que consigo observar  claramente nestes anos que tenho na Igreja, é que o arrependimento e o remorso nos vem quando quebramos os mandamentos de Deus, e não quando guardamos os mandamentos de Deus.

Se você tem vivido algum tipo de conflito entre seus próprios pensamentos e a inspiração de Deus, se de alguma maneira você tem pensado que seria mais lógico para você sair da Igreja, ou acabar com seu casamento, ou deixar de acreditar ou de guardar qualquer mandamento de Deus, espero que este artigo possa ter lhe ajudado a entender que sempre será melhor agirmos pela lógica do Nosso Pai Celestial ao invés da nossa. Este é o sexto artigo da série “Deus fala comigo”, do OrvalhoSUD. Já vimos até aqui que Deus se comunica conosco através das escrituras, de sonhos, de um ardor no peio, de paz à nossa mente e coração, de um estupor de pensamento e de impressões que vão contra a nossa própria lógica. Siga nossa página no facebook para acompanhar cada nova publicação. Nosso próximo artigo será sobre “Coincidências Sagradas. Até lá!