No artigo anterior nós vimos que Deus não se comunica conosco apenas através de sentimentos ou de acontecimentos, mas vimos que Ele também nos fala diretamente através da voz do seu Espírito, de maneira tão clara que nos possibilita até mesmo escrever aquilo que ouvimos. Observamos no artigo 08 que em alguns momentos de nossa vida a voz do Senhor será apenas uma ordem, fazendo uso de um verbo no modo imperativo e, neste caso, muitas vezes seremos obedientes sem ter a mínima ideia do porquê, como foi o caso dos meus amigos que pararam de correr e de dirigir sem saber a razão, para que tudo somente fizesse sentido depois. Neste artigo 09 veremos outro tipo de voz que vem até nós por revelação dos céus, é quando o Senhor decide nos explicar o porquê das coisas, Ele não está nos dando uma ordem, mas sim nos ensinando e nos dando a razão daquilo que estamos vivendo ou daquilo que devemos fazer, é o que chamo de voz explicativa de Deus.

Como eu já falei aqui em artigos anteriores, eu conheci a Igreja com 17 anos de idade enquanto vivia nos EUA fazendo intercâmbio, morando com uma família mórmon. Neste tempo, eu fiquei muito admirado com a Igreja e com seus membros, muitas vezes me senti tocado por uma paz que me fez desejar aquilo para minha vida também. Porém, tinha dúvidas se meu desejo de me batizar naquela Igreja era porque lá eu realmente sentia a presença de Deus ou porque talvez eu estivesse de alguma maneira buscando me sentir mais aceito por aquela sociedade na qual eu estava momentaneamente inserido. Por isso, decidi esperar.

Finalmente, dois meses depois de ter chegado ao Brasil e ter me adaptado a minha vida, decidi buscar aquela Igreja que eu havia conhecido. Em um domingo pela manhã, me dirigi até lá. Ao chegar de bicicleta no portão da Igreja, eu me sentia inseguro e tímido, não conhecia ninguém, então um irmão veio até mim. Era o irmão Jaime, que era o presidente do quórum de Elderes, um irmão amoroso, que me recebeu com um belo sorriso e me convidou a entrar. Colocando as mãos nos meus ombros, ele me acompanhou Igreja adentro. Enquanto eu caminhava ao seu lado, eu senti como se fora o próprio Pai Celestial que estivesse me trazendo pelos ombros, meu corpo se encheu de uma paz indescritível, sentia como se eu estivesse andando em nuvens. Ao chegar ali, eu avistei os missionários, meu peito inchou, e então eu ouvi uma voz que veio até a minha mente que me disse: “Paulo, o que você está sentindo aqui é o mesmo que você sentia lá, porque esta não é uma Igreja de americanos, esta é a minha Igreja, a Igreja de Jesus Cristo. Você não tem mais que procurar, aqui é o seu lugar. ”

Eu ainda não compreendia o dom do Espírito Santo, eu apenas sabia rezar, eu ainda não sabia como me comunicar e receber respostas de Deus, mas me lembro perfeitamente destas palavras que vieram à minha mente naquele dia – ao entrar na Igreja e sentir uma grande paz em meu corpo, veio à minha mente as palavras exatas que me explicaram o que eu estava sentindo e o que eu deveria fazer. Não foi uma ordem, não foi um grito, não foi como se uma pessoa estivesse falando comigo, simplesmente foi como se uma voz falasse diretamente estas palavras na minha mente, e foi tão marcante para mim que hoje, 18 anos depois, ainda me lembro claramente do que ouvi. É este tipo de experiência que classifico como ouvir a voz explicativa de Deus. Eu havia sentido uma grande paz, mas por não saber ainda o que aquela paz significava, Deus achou por bem explica-la para mim.

Assim como nos artigos anteriores, podemos continuar a observar o exemplo da comunicação de Deus com Néfi, no Livro de Mórmon. Quando ele vai buscar as placas de latão, e encontra Labão bêbado e sozinho, Néfi escuta a voz imperativa de Deus dizendo-lhe “Mata-o! O Senhor entregou-o em suas mãos. ” Vemos nas escrituras que Néfi ouviu esta voz imperativa três vezes e mesmo assim não sentia que deveria fazê-lo, pois em sua mente pensou – “Nunca fiz correr sangue humano. E contive-me; e desejei não ter de matá-lo.” Neste momento vemos uma típica situação na qual nós começamos a discutir com o Espírito e a questionar a ordem de Deus. Neste caso, ao questionar a voz imperativa por três vezes, Deus foi misericordioso com Néfi e então explicou-lhe a razão de sua ordem, lemos:

“E aconteceu que o Espírito me disse outra vez: Mata-o, pois o Senhor entregou-o em tuas mãos. Eis que o Senhor mata os iníquos, para que sejam cumpridos seus justos desígnios. Melhor é que pereça um homem do que uma nação degenere e pereça na incredulidade.” 1Nefi4:12,13

Depois de Néfi ter ouvido a voz explicativa de Deus, ele conseguiu compreender porquê ele deveria matar Labão, com isso ele foi capaz de obedecer e seguir adiante com a ordem do Senhor.

Enquanto eu vivia nos EUA, em junho de 1998, houve uma grande conferência anti-mórmon em Salt Lake City, organizada pela Igreja Batista (Southern Baptist Convention – SBC). Lembro-me que na época eu li nos jornais que eles diziam que os mórmons não eram cristãos, e outras coisas mais. O objetivo desta Convenção era exatamente pregar o evangelho aos mórmons, para ajuda-los a aceitarem a Cristo, pois de acordo com a visão deles, o Jesus adorado pelos mórmons não era o mesmo da Bíblia. Com isso, mais de 2000 batistas saíram batendo de porta em porta em Salt Lake City para pregar o evangelho aos mórmons. Podemos ler sobre este evento neste link http://www.cometozarahemla.org/others/mormons-on-the-rise.html

Na ocasião, lembro-me de ter ficado intrigado com estas matérias que eu lia, pois para mim, sendo cristão e vivendo por meses em uma comunidade mórmon, não me fazia sentido nenhum alguém não considerá-los cristãos. Lembro-me que decidi perguntar para o pai de um amigo meu que era mórmon, o que ele achava sobre isso que os batistas diziam sobre eles. Fiz-lhe esta pergunta com o real intento de observar sua reposta, imaginei que talvez ele ficasse ofendido e dissesse que eram os batistas que não eram cristãos, ou algo assim. Então, certo dia na Igreja eu o chamei e lhe fiz a pergunta – Você viu que os batistas estão em Salt Lake em uma convenção e estão dizendo que vocês não são cristãos, o que você acha disso? – Lembro-me então que ele me olhou nos olhos com um sorriso bem sincero e com um olhar manso, e me respondeu algo que eu não esperava, e me disse balançando a cabeça: “Nós somos cristãos sim, nós somos pessoas boas”. E não disse mais nada. Fiquei estático, eu não tinha mais nada para dizer. Naquela hora meu peito se encheu de uma profunda paz, eu sabia que ele estava dizendo a verdade, eu sabia que eles eram pessoas boas. Vivendo por 17 anos em um país cristão como o Brasil, eu agora conhecendo os mórmons, observando a maneira como eles buscavam viver seguindo o exemplo de Cristo de uma maneira tão real, sincera, equilibrada e profunda, como eu jamais achei que fosse possível, naquela hora eu pensei – se os mórmons não são cristãos, então ninguém é.

Pois bem, na experiência acima eu senti aquela paz que eu descrevi no artigo 04, que eu voltei a sentir quando entrei na Igreja no Brasil. Acontece que, ao ir embora dos EUA, em Junho de 1998, peguei um avião em Salt Lake City que faria escala em Dallas, e por 3 horas eu tive uma companhia um pouco diferente ao meu lado no avião, um líder da Igreja Batista que estava indo embora da Conferência Antimórmon que eu mencionei acima. Começamos a conversar e por 3 horas aquele homem tentou de todas as formas me convencer que a Igreja era falsa, que Joseph era um mentiroso, que o Livro de Mórmon não era sagrado e que os mórmons adoravam um falso Cristo e me deu vários folhetos falando mal da Igreja SUD. Quanto a mim, eu não tinha conhecimento algum para contra-argumentar o que ele me dizia, mas lembro-me que pensei– por quase um ano entre mórmons, nunca eu ouvi ninguém chegar até mim para criticar minha religião católica (na época) ou qualquer outra, e são os mórmons que não são cristãos? Eu sinceramente não me sentia bem com Igrejas que usavam de seu tempo para pregar contra outras igrejas, aquilo sim não me parecia cristão.

Por fim, depois de tantas coisas que aquele homem batista me falou, uma dúvida ele conseguiu colocar na minha cabeça, e era a respeito da poligamia. Eu realmente queria entender o que havia sido esta poligamia dentro da Igreja, ninguém nunca havia me falado sobre isso antes. Então, quando comecei a ouvir as palestras com as sísteres para me batizar eu lhes perguntei sobre isso, e elas, naquele momento, não conseguiram esclarecer minha dúvida. Então, no Domingo, na aula dos rapazes, eu perguntei sobre isso ao professor, que também não sabia como responder, então ele chamou o Bispo. O Bispo começou a tentar explicar e eu não consegui entender, ou aceitar sua explicação, e comecei a argumentar. Naquele momento, um rapaz de 16 anos que depois se tornou um grande amigo,  Luciano Torres, olhou para mim e disse – “Isso é coisa de Deus, nem tudo que é de Deus a gente vai compreender”.

Quando aquele rapaz me disse isso, eu senti como se um anjo tivesse descido do céu e me dado um grande tapa na cara, naquele instante uma voz veio à minha mente e disse – “Paulo, depois de tudo o que você viveu, depois de tudo o que você sentiu e viu, você ainda vai questionar? Eu não tenho que te mostrar mais nada”.

Instantaneamente eu pedi para que todos parassem de tentar me explicar, eu não precisava saber, não naquela hora, eu já sabia o suficiente para seguir adiante, estava na hora de eu fazer a minha parte. No dia seguinte as sísteres chegaram em minha casa junto com uma dupla de Élderes, e eu sei que eles foram nesta palestra para responder minha dúvida sobre poligamia, entretanto, eu já havia recebido a resposta de Deus, e não lhes questionei sobre isso e aceitei a data do batismo. Acho que até hoje eles devem se perguntar o que aconteceu que eu nunca mais lhes questionei sobre poligamia, e a verdade é que Deus já havia falado comigo, através do que chamo de uma voz explicativa, o Espírito havia falado com clareza em minha mente que eu já sabia o suficiente, não era mais hora de questionar.

Às vezes, esta voz também pode vir até nós por meio das escrituras. Lembro-me quando eu era um missionário em Salvador, Bahia, que haveria transferência e eu não queria ser transferido. Eu estava há meses trabalhando com uma linda família que estava próxima de ser batizada, e por causa disso eu desejava permanecer na área. Com isso, antes de dormir eu ajoelhei-me e expus meus sentimentos a Deus em oração, e pedi para não ser transferido. Naquele exato momento veio uma simples escritura, de Jacó, em minha mente:

“Portanto, irmãos, não tenteis dar conselhos ao Senhor, mas, sim, recebei conselhos de sua mão. Pois eis que vós mesmos sabeis que ele aconselha com sabedoria e justiça e grande misericórdia em todas as suas obras.” Jacó 4:10

Depois desta experiência, aprendi que quando oramos, o fazemos para conciliar nossa vontade com a de Deus, e não o contrário. Que possamos ter sempre nossos ouvidos e corações abertos para ouvir esta voz mansa, profunda e cheia de palavras claras do Senhor. Se você já teve alguma experiência semelhante, compartilhe nos comentários ao final deste artigo.

Este é o nono artigo da série “Deus fala comigo”, do OrvalhoSUD. Até aqui já vimos que Deus se comunica conosco através das escrituras, de sonhos, de um ardor no coração, de uma paz no peito e na mente, de um estupor de pensamento, através de sentimentos contra nossa lógica, através coincidências sagradas, por uma voz de ordem e por uma voz explicativa. Ao longo desta série veremos 21 maneiras distintas pela qual se dá esta comunicação celestial. Nosso próximo artigo falará sobre “Uma voz que profetiza”. Até lá!